Solidariedade: Projeto brasileiro leva arte e educação a refugiados na Síria

Por Janaína Góes

Há seis anos iniciava-se na Síria, uma guerra civil que movimentaria o mundo inteiro. O que começou com uma série de grandes protestos para destituir o presidente Bashar AL-Assad do poder, tornou-se uma guerra não só politica, mas também religiosa, atingindo outros países, como Iraque e Líbano.

Segundo dados divulgados em março deste ano pela agência da ONU, para os Refugiados (Acnur), em seis anos de guerra civil, a Síria acumula hoje, mais de cinco milhões de refugiados, 400 mil mortos e mais de 6,3 milhões de deslocados internos.  A Acnur também estima que, quase 1,2 milhão de refugiados precisarão ser assentados em 2017, entre os quais 40% são sírios.

 No Brasil, a CONARE (Comitê Nacional para os Refugiados), publicou em setembro de 2013, a Resolução nº. 17 autorizando as missões diplomáticas brasileiras a emitir vistos especiais a refugiados e pessoas afetadas pelos conflitos. O que resultou num crescimento de mais de 2.868% nos pedidos de refúgio entre 2010 e 2015. Em seu último balanço realizado em 2016, a entidade divulgou que o Brasil possuía 8.863 refugiados identificados, de 79 nacionalidades distintas, sendo 2.298 sírios.

Travessias arriscadas, desprezo e xenofobia, mortes e muita tristeza é o que mundo oferece para quem tenta sair do país. Para os que ficam, há campos de refugiados, em que se sobrevive com as mínimas condições. É em um desses campos, localizado no bairro de Al-Midan, em Damasco que um grupo de artistas brasileiros deixou sua arte na intenção de colorir e levar um pouco de esperança para a vida dessas pessoas.

Lar de crianças e famílias refugiadas do Norte do país, onde o conflito já devastou centenas de vilas e cidades, o local, que na verdade é uma antiga escola adaptada, recebeu no final de abril, um novo visual, colorido e cheio de vida, produzido pelos grafiteiros Rimon Guimarães e Zéh Palito (do projeto Cosmic Boys) em conjunto com a comunidade. O muro do albergue provisório, que mede 267m²,acredita-se que tenha se tornado o maior mural do país.

A iniciativa, chamada de Cosmic Future, enquanto em turnê no Oriente Médio, que teve participações da documentarista francesa Agathe Champsaur e a artista síria Anas Albraeh, é um desdobramento do Conexus Project, projeto de arte contemporânea que promove exposições, intervenções artísticas e oficinas educativas pelo mundo. Segundo a curadora Sheila Zago, o objetivo principal é trazer alegria e perspectiva para crianças e adolescentes refugiados, com a ambição de colaborar que elas tenham um futuro melhor.

Na Síria em especial, o projeto seguiu por uma vertente diferente dos outros países. Enquanto em Shalita (campo de refugiados palestinos em Beirute) foi feito um mural coletivo com retratos e histórias dos adolescentes refugiados, em Damasco iniciou-se um modelo de diálogo com crianças de dentro e fora do país. “A ideia é que elas troquem mensagens através de expressões artísticas diversas, abrindo um diálogo que vai mostrar um pouco da situação dos Sírios lá no exterior. Por enquanto trabalhei com desenho e mural, mas pretendo convidar mais artistas de outras aéreas para desenvolver o conceito e praticá-lo com crianças e adolescentes nos próximos meses.”

Mesmo em situações de guerra, onde é difícil imaginar como realmente a arte pode ajudar, atos como este que procuram aliviar um pouco do desamparo em que vivem estas famílias, são importantes para ajudá-los a manter uma visão positiva em relação ao futuro. Segundo Agathe Champsau, “A maioria das pessoas não pensam em arte em uma situação de conflito. Eles estão lutando por direitos civis aqui, por melhores condições de vida, por comida, etc. Mas muitas crianças ou adolescentes têm um hobby artístico. Alguns tocam música, alguns cantam, outros vão para aulas de desenho… Tudo o que fazem realmente vem do coração… Arte é uma maneira de escapar e poderia levá-los a sair do campo. A arte é uma arma mais poderosa do que as armas”. A curadora Sheila Zago explica que a arte é um instrumento de educação que incentiva mudanças positivas, influenciando nas decisões educacionais e profissionais destas crianças e adolescentes no futuro. “As cores mudam o espaço e a relação das pessoas com o mesmo imediatamente. A arte é um veículo capaz de transmitir mensagens conscientes e inconscientes, trazendo um senso de pertecimento e empoderamento que contagia os participantes”.

Além das aulas de grafite em Al-Midan, o Cosmic Future também participou de uma residência artística na galeria Mustafá Ali, uma visita oficial a Faculdade de Belas Artes, e uma visita ver oficina com crianças do projeto SOS Kinder Village e no Kafr Sousa Center – coordenado pela UNICEF. O projeto teve apoio da embaixada Brasileira em Damasco.

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