Primavera que virou Inverno

Os desdobramentos e o custo humano da Guerra do Iêmen

“A Guerra do Iêmen é, por conveniência, bastante invisibilizada, já que todas as partes envolvidas no conflito estão violando gravemente os direitos humanos e o direito internacional humanitário”, revelou a internacionalista e cientista política Cláudia Marconi, sobre o tema. Para ela, contradições como o fato de os Estados Unidos serem o maior fornecedor de ajuda humanitária ao Iêmen, e ao mesmo tempo, executarem no país uma série de operações baseadas em ataques aéreos, sobretudo as áreas associadas ao Estado Islâmico e à Al Qaeda, dizem muito sobre a ineficácia do envolvimento internacional no conflito, o que acaba atribuindo erroneamente à Organização das Nações Unidas e aos enviados especiais, a responsabilidade de difundir informações sobre os desdobramentos da guerra.

Com uma extensão territorial de 527.968 km² e uma população de 28 milhões de pessoas, o Iêmen é o país mais pobre do Oriente Médio, e palco de um conflito armado que já dura quase cinco anos. A Guerra do Iêmen protagoniza, de acordo com a ONU, a maior crise humanitária da história, deixando até 2018 mais de 10 mil mortos e 50 mil feridos. Os confrontos permeiam temas como a oposição religiosa entre xiitas e sunitas, o mercado de petróleo e a disputa geopolítica entre Arábia Saudita e Irã, e tiveram início com a chegada da chamada “Primavera Árabe”, que rapidamente se transformou em um intenso inverno.

Antes disso, em 1990, liderado por Hussein al-Houthi, o grupo Shabab al-Muminin (a “Juventude Crente”) iniciou no país uma campanha de conscientização sobre o ramo zaydi do islamismo xiita, que dominou o Iêmen até os anos 60, quando foi afastado por conta de uma guerra civil interna. Em 2003, diante da invasão americana no Iraque, Houthi foi assassinado enquanto protestava contra os Estados Unidos. Nasce assim, o Movimento Houthi, marcado por um forte viés religioso, e temente à instauração de uma república islâmica no Iêmen. Os Houthis voltam a marcar presença na história iemenita em 2011, ano em que uma revolta popular depôs o ditador apoiado pelo grupo Ali Abdullah Saleh, assumindo o poder o vice-presidente Abd Rabbuh Mansur Al-Hadi.

A busca por estabilidade democrática, porém, fracassou. Hadi enfrentou problemas como escândalos de corrupção, recessão financeira, desnutrição da população, ataques da Al Qaeda e do Estado Islâmico, além de militares que seguiam sendo leais a Saleh e o movimento separatista do Sul do país, já que até os anos 90 o Iêmen era dividido em duas nações. Instaurou-se assim uma grave crise política e econômica, levando muitos iemenitas (inclusive os sunitas) a apoiarem os Houthis na tomada da capital Sanaa, em 2014, quando o presidente foi obrigado a se exilar, cessando a partir daí, uma guerra entre o Movimento Houthi e países que apoiavam a restauração do governo Hadi, como Arábia Saudita, Estados Unidos, Emirados Árabes, Reino Unido e França.

Surge, então, sob liderança dos sauditas, a chamada “Coalizão Internacional”, que em 2015, utilizando armamentos americanos, fez seu primeiro ataque aéreo contra os Houthis. O grupo de rebeldes foi expulso de boa parte do Sul do Iêmen, onde se estabeleceu e retomou o mandato o presidente Mansour Hadi. Desde então a guerra vem se desenhando de maneiras cada vez mais hostis, atraindo, e por isso segregando, Estados, como é o caso do Irã. Ainda que as autoridades neguem piamente o envolvimento do país nos confrontos armados do Iêmen, relatórios da ONU já afirmaram que a capital Teerã tem fornecido ferramentas tecnológicas e bélicas ao movimento.

“Os Houthis se tornaram uma espécie de representação iraniana fora do seu território, mas encaminhar um projeto político sobre o Iêmen, considerando o peso da Arábia Saudita, pressupõe que o Irã tem interesses bastante audaciosos para com o país”, explicou Cláudia Marconi, que levanta uma interessante hipótese acerca da relação Irã-Iêmen: para ela, os iranianos podem ter visto no avanço Houthi uma oportunidade de baixo custo para ganhar algum tipo de controle sobre o Iêmen, assumindo um equilíbrio de poder regional sem grandes visibilidades e custos políticos. O grupo rebelde também pode ter sido, segundo Marconi, a alternativa mais fácil cogitada pelos iranianos para reequilibrar a distribuição de poder na região, considerando a ampla presença saudita na guerra civil, já que o país lidera uma campanha de 10 países coligados.

Já para o consultor legislativo do Senado Federal na área de relações exteriores e defesa nacional Tarciso Dal Maso, essas acusações partem predominantemente de órgãos de inteligência geral, e por isso, precisam ser analisadas com cautela. “Se o Irã não tem a intenção de formar uma guerra contra o país, ele vai, de alguma maneira disfarçar aquilo, ou terceirizar esse conflito, o que significa muitas vezes, não intervir diretamente e deixar que outro grupo direcione um ato hostil a outro”, levantou ele.

O mais recente desdobramento da Guerra Iemenita, por sua vez, levanta fortes indícios de que o Movimento Houthi vem recebendo ajuda externa. O grupo reivindicou o ataque às principais refinarias de petróleo da Arábia Saudita, onde é realizada a terceira maior produção mundial do comódite, que não custava tão caro desde a Guerra do Golfo, em 1991. A produção de petróleo do país caiu pela metade, e o preço mundial dos barris registrou uma alta de 20%, mas o que chama mais a atenção, é a forma com que essa operação foi realizada: com drones. Com uma média de 18 alvos simultâneos, a tecnologia empregada é bastante rebuscada, o que, muito provavelmente, indica que o armamento não foi desenvolvido apenas nas dependências Houthis.

Sob essa perspectiva, Tarciso também aponta as “Guerras de Precisão” como uma tendência. “Daqui um tempo não será mais preciso ir até outro país para matar pessoas, já que o objetivo para atingi-lo, provavelmente não seja destruir seu quartel, ou algo do tipo. O conflito assimétrico tradicional era uma guerrilha, que ocorria quando não se tinha condições de enfrentar um Estado militarmente mais forte. Mas os conflitos assimétricos vão se elevando, e a guerra cibernética pretende equaliza-los”, revelou o especialista, que questiona em que ponto o direito internacional consegue se enquadrar na questão que afeta diretamente as populações civis.

E são justamente os civis os que mais sofrem com a Guerra do Iêmen. Com mais de 80% da população necessitada de algum tipo de ajuda, segundo a ONU, em 2018, 14 milhões de iemenitas se encontravam em situação de fome, sendo que, deste total, mais de 462 mil crianças apresentavam desnutrição aguda. A completa destruição da infraestrutura do país, incluindo os sistemas de encanamento e saneamento básico, levaram o Iêmen a enfrentar a maior e mais rápida epidemia de cólera já registrada, com um milhão de casos declarados, somados as mortes de duas mil pessoas infectadas. Outra enfermidade que, assim como a cólera já estava erradicada no local, vem afetando em massa a nação, é a difteria, uma grave infecção bactericida do nariz e da garganta.

A propagação destas doenças está diretamente ligada às dificuldades impostas pelo governo à prestação de assistência médica, bloqueando e confiscando a entrada de medicamentos e de ajuda humanitária, e bombardeando além de eventos como casamentos e funerais, instituições como escolas, aeroportos e hospitais, dentre eles o centro de combate a cólera do “Médicos sem Fronteiras”, antes mesmo de sua inauguração. Existe também a impossibilidade de deslocamento em meio aos bombardeios, o que impede a chegada dos civis até os postos de ajuda e vice-versa. Em fevereiro de 2017, a representação da OMS no Iêmen, declarou que o sistema de saúde do país entrou em colapso, deixando 14,8 milhões de pessoas (mais da metade da população) sem acesso a cuidados básicos de saúde.

E os crimes de guerra não param por aí: em um relatório divulgado no início de setembro, a ONU afirmou que, além dos abusos sexuais cometidos nas prisões, mais de 1500 crianças já foram brutalmente recrutadas como soldados. De acordo com a Organização Mundial da Saúde, em conflitos armados em geral, é comum que 17% da população desenvolva depressão, enquanto 15% fica passível de sofrer um transtorno de estresse pós-traumático. A OMS, relata, porém que há uma escassez de dados epidemiológicos sobre doenças mentais no Iêmen. Fontes do Ministério do Interior e outros especialistas em saúde mental em Sanaa, revelaram, por sua vez, que as taxas de suicídio na capital aumentaram cerca de 60%, enquanto um estudo realizado pelo Yemen Children Relief (YCR) em crianças de Sanaa, Áden, Taiz e Abyan, demonstrou que 17% delas sofrem constantes ataques de pânico.

“Muitos estudos vêm discutindo também o suicídio dentro da esfera familiar iemenita, muito atrelado à precarização de serviços de saúde básicos dirigidos às crianças. Um pai e uma mãe cometem, por exemplo suicídio depois de envenenarem os próprios filhos, em meio à situação de miserabilidade em que se vive. Esse assassinatos familiares representam uma descrença em qualquer tipo de autoridade, e revela uma população refém de um conjunto de soluções das quais não participa, deixando de reconhecer qualquer pauta ou agenda política que seja abordada”, acrescentou Cláudia Marconi. A internacionalista acredita que estes casos podem acabar por reforçar uma série de estereótipos sobre o Iêmen, disseminando narrativas simplificadoras das crises vivenciadas, e inclusive, atenuado-as.

Cláudia pontua ainda que, o que ocorre no Iêmen, é o que o direito internacional humanitário chama de Slow Death, um conceito característico das crises humanitárias contemporâneas. Para a expert em relações internacionais, é preciso reconhecer que as guerras civis tendem a seguir este padrão de morte mais lenta daqui para frente, o que não pode ocultar a visibilidade desses conflitos, para que os problemas atuais não perdurem: “Os acordos de paz e as suas necessidades de serem repactuados quase que constantemente, as naturezas de atores não estatais e a dificuldade de atribuir a eles uma certa previsibilidade no terreno político e no campo das negociações, além, é claro, de interesses internacionais muito variados que incidem sobre os porosos territórios das guerras civis, são fatores que se retroalimentam entre si, reaquecendo o conflito armado”.

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